Ela estacionou atravessado na rua. Todo mundo que passava buzinava ou xingava alguma coisa. Entrei e dei-lhe um beijo na bochecha.
“Demorei... foi mal. Não quis descer de elevador com a família Buscapé inteira, vim de escada.”
“Tua cara.”
“E meu cabelo estava difícil de pentear.”
“Você parece mulher.”
“Se eu parecesse mais um pouco, arrumava um velhote pra me bancar.”
“Ainda dá tempo.”
“Espero que sim. Escuta, será que a gente pode ir agora?”
Saiu cantando pneu e deixou o carro morrer na primeira lombada. Disse que não queria mais dirigir e eu tomei o volante.
Como não conseguimos decidir para qual shopping iríamos, acabamos seguindo em direção ao mais próximo.
*
Só pra variar um pouco, foi um saco arrumar uma vaga. Quando consegui, ao descer acendi um cigarro para comemorar o feito.
“Gui, cê não sabe que não pode fumar aqui?”
“E daí que não pode? Vão fazer o quê? Me processar? Jogar spray de pimenta nos meus olhos?”
“Sei lá.”
“Vamos andando. Eu apago se alguém vier encher o saco.”
Caminhamos até as escadas rolantes que davam acesso ao shopping. Ninguém veio chatear. Como tinha conseguido a minha ceninha, apaguei o cigarro antes de descer. Bela foi na frente e eu abracei-a por trás e dei uns beijinhos em sua nuca morena.
“Cê parece criança”, ela disse.
“Isso é ruim?”
“Você tem vinte e seis anos.”
“E você tem trinta e seis.”
“Trinta e seis tem a sua vovozinha e a sua mãe.”
“Não, as duas juntas tem umas cinco vezes isso.”
“Olha, Gui, aqui tem o tênis que eu quero!”, disse, toda feliz, apontando para uma loja de tênis.
Paramos em frente da vitrine e eu vi que tênis era esse que ela queria – um troço todo colorido, de cano alto, com algumas bobagens escritas e alguns desenhos. Parecia algum tipo de brincadeira de péssimo gosto.
“Bom, combinaria com você se você tivesse sete anos”, falei. “Por que não procura um daqueles que acendem luzinha embaixo quando se pisa?”
“Já falei que quem tem trinta e sete anos é a sua mãe e a sua avó.”
“Eu não disse trinta e sete...”
“E esse aqui?”, disse, apontando para um outro coloridão – mas sem todas aquelas asneiras escritas e desenhos.
“Gostei desse. Mas, caralho, trezentos e noventa paus?!”
“Meio caro né?”
“Pra você pode até ser. Pra mim é o mesmo que passar seis meses almoçando churrasco grego na barraquinha do cabeludo do lado da Galeria do Rock.”
“Vamos ver as outras lojas.”
“Tá.”
Peguei em sua mão e fomos caroçar mais um pouco nas vitrines. A maioria das coisas era um lixo completamente inútil...
Para que eu ia querer uma mochila de notebook à prova de balas e com porta garrafa de uísque que custava R$ 3.950,00? Para que eu ia querer um relógio que suportava um quilômetro de profundidade e mordida de tubarão assassino pela bagatela de R$ 9.440,00?...
O que tem de interessante em gastar R$ 24,00 para sentar numa cadeira de silicone e tomar uma porra de um iogurte congelado com gosto de vômito açucarado? E ainda por cima fazendo pose de ricaço blasé?
Depois até encontrei algumas coisas que “pegaram” meu olho, tipo um casaco de couro ultra fashion que custava R$3.800,00 e uns óculos Rayban de grau por R$ 890,00. Mas tive que deixar para a próxima.
Como sempre, tivemos que fazer uma parada básica na C&A, onde peguei (quero dizer, comprei) duas camisetas sem estampa por R$ 12,90 cada, na promoção. Bela quis me dar um agasalho de presente, só que aí já era demais para a minha cabeça, e eu não aceitei.
Na livraria não encontrei nenhum livro que eu queria. O lugar também era bem mal organizado e mal frequentado, e os funcionários não pareciam estar fazendo nada além de bagunçar mais ainda as prateleiras. Havia romances grossíssimos com capas laminadas, letras em alto relevo, gravuras coloridas, a porcaria toda, repletos de histórias sobre bruxos, dragões, vampiros, zumbis, fantasmas, aliens e cowboys e outras merdas. Também havia algumas novas edições dos clássicos imortais da literatura repletas de descrições de planícies, móveis de madeira, candelabros, bengalas e relógios de bolso. E tinham também vários manuais ensinando como pensar, como falar, como se alimentar, como se vestir, como trabalhar, como trepar... Dava pra notar que praticamente todos os livros ali haviam sido escritos, produzidos e editados para que alguém os levasse a sério. E nego realmente tinha que fazer todo esse esforço mesmo...
De volta à loja de tênis Bela acabou escolhendo outro (tênis); um de quatrocentos e setenta paus – mas sem luzinhas e cores demais e bobeiras escritas. Nisso já eram nove e cinquenta da noite. Subimos para o estacionamento.
Srta. Sorrisinho mal pôde esperar, e já dentro do carro foi calçando seus novos tênis. Sorria para mim. Ela tinha medo da descida em espiral do estacionamento do shopping, então só falou quando já estávamos lá embaixo. “Gui, bora tomá uma?”
“Ahhhh... de novo?”
“Ué, por que não?”
“Amanhã eu trabalho.”
“Eu também. Tenho que estar as oito no salão.”
“Seria bom se você tirasse uma folga de vez em quando.”
“Ha, queridinho! E quem vai pagar minhas contas? Você?”
“Lógico que não. Arruma outro otário.”
“Então!... Ah, Gui, vamos, vai”, disse, fazendo biquinho. “Eu pago”
“Ah, agora sim cê falou o que eu queria ouvir”, brinquei e falei sério (muito sério...) ao mesmo tempo.
“Aonde a gente vai?”
“Sei lá, escolhe um lugar, Belinha.”
“Por que sou sempre eu quem tem que escolher?”
“Porque por mim a gente ia lá no boteco do China encher o rabo de cachaça até que o desgraçado expulsasse a gente.”
“Olha, se comporta hoje, viu? Que eu não tô podendo.”
Ela escolheu um bar aonde nós sempre íamos em fins de domingo como aquele; um mais ou menos tranquilo e meio caro (caro para mim, bem entendido). Tive de estacionar na rua de trás – onde ocorriam estupros e assassinatos –, porque eu não estava nem um pouco a fim de pagar estacionamento – e seria cara-de-pau demais deixar que a Bela também pagasse por mais essa. Dei uma mão para a ela e com a outra, dentro do bolso, posicionei o dedo em cima do botãozinho da lâmina do canivete, para caso houvesse alguma altercação. Mas não houve nenhuma.
Por Guilherme Sakuma
Parte 3: quarta-feia
O lugar estava vazio, coisa que me deixou muitíssimo contente. Sentamos numa das mesas do lado de fora e pedimos a cerveja da Paris Hilton e da Sandy Devassa [...]
Leia a Parte 1