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Cerveja na biblioteca

quinta-feira, 10 de maio de 2012


Calma, calma! Não estou falando de nenhuma biblioteca onde se pode consumir álcool livremente. Trata-se da Open Air Library, uma biblioteca pública localizada em Magdeburg, Alemanha, construída quase que totalmente com caixas de cerveja doadas por uma empresa da região. As embalagens são habitualmente utilizadas para vender a bebida em lotes. O escritório de design Karo prestou acessória durante a obra e foi responsável pelo acabamento da obras reutilizando partes da fachada de um armazém abandonado.
O projeto busca, além de diminuir o volume de lixo produzido no município, incentivar o hábito da leitura entre os moradores e recuperar a autoestima da cidade basicamente esquecida após a reunificação da Alemanha.


A ideia, além de inovadora quanto ao material utilizado, é um bom exemplo da aplicação dos conceitos de ‘público’,‘colaboração’ e ‘confiança’, já que foi erguida com o esforço da população, e os mais de dois mil livros do acervo foram doados por moradores, que também são responsáveis pela manutenção e conservação do prédio. A biblioteca funciona em sistema 24 horas sem funcionários ou seguranças: qualquer um pode entrar, pegar um livro e levá-lo para casa (entendendo, claro, que será preciso devolver).
O prédio conta também com área externa, espaço para apresentações culturais e área verde.
A pergunta que não quer calar: daria certo em terras brazilis?
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Tinta, papel e alfinetes

quinta-feira, 3 de maio de 2012


Escritores são entidades acima do bem e do mal, mentes ocupadas apenas com temas nobres e superiores, enclausurados em seus templos de criação, nobremente solidários com companheiros de profissão, certo? Errado. Escritores são críticos, e podem ser por vezes mesquinhos, eventualmente implicantes, despeitados, ferinos, sarcásticos, criaturas providas de um kit especial composto por línguas e garras afiadas. Enfim, são humanos.

Separei uma lista das mais interessantes alfinetadas e provocações literárias, que em linhas gerais dão uma ideia da opinião real que gênios cultivam por outros gênios. Algumas dessas tiradas me fizeram admirar ainda mais os autores que sempre gostei – principalmente ao emitirem as críticas. Outras... bem, outras apenas confirmaram minhas impressões. O fato é que, no mundo literário ou não, parece que ninguém poupa ninguém.

Lá vão elas. Divirtam-se!

H. G. Wells (Guerra dos Mundos) sobre George Bernard Shaw (Pygmalion)
“Uma criança idiota gritando em um hospital.”

Lord Byron (Don Juan) sobre John Keats (To Autumn)
“Aqui temos a poesia ‘mija-na-cama’ do Johnny Keats e mais três romances de sei lá eu quem. Chega de Keats, eu peço. Queimem-o vivo! Se algum de vocês não o fizer eu devo arrancar a pele dele com minhas próprias mãos.”

William Faulkner (A Cidade) sobre Ernest Hemingway (Por Quem os Sinos Dobram)
“Ele nunca sequer pensou em usar uma palavra que pudesse mandar o leitor para um dicionário.”

William Faulkner sobre Mark Twain (As Aventuras de Huckleberry Finn)
“Um escritor mercenário que não conseguia nem ser considerado da quarta divisão na Europa e que enganou alguns esqueletos literários de tiro-certo com cores suficientemente locais para intrigar os superficiais e preguiçosos.”

Hemingway, placidamente rabiscando seus alfarrábios

Ernest Hemingway sobre William Faulkner
“Pobre Faulkner. Ele realmente pensa que grandes emoções vêm de grandes palavras?”

Mark Twain sobre Jane Austen (Orgulho e Preconceito)
“Eu não tenho o direito de criticar nenhum livro e eu nunca faço isso, a não ser quando odeio um. Eu sempre quero criticar a Jane Austen, mas seus livros me deixam tão bravo que eu não consigo separar minha raiva do leitor, portanto eu tenho que parar a cada vez que começo. Cada vez tento ler Orgulho e Preconceito quero exumar seu cadáver e acertá-la na cabeça com seu osso do queixo.”

Ralph Waldo Emerson (Concord Hymn) sobre Jane Austen
“Os romances da senhorita Austen me parecem vulgares no tom, estéreis em inventividade artística, presos nas apertadas convenções da sociedade inglesa, sem genialidade, sem perspicácia ou conhecimento de mundo. Nunca a vida foi tão embaraçosa e estreita.”

Virginia Woolf (Orlando) sobre Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo)
“É tudo um protesto cru e mal cozido”

Virginia Woolf sobre James Joyce (Ulisses)
“Ulisses é o trabalho de um estudante universitário enjoado coçando as suas espinhas”

Oscar Wilde (O Retrato de Dorian Grey) sobre Alexander Pope (Ensaio sobre a crítica)
“Existem duas formas de se odiar poesia: uma delas é não gostar, a outra é ler Pope.”

Joseph Conrad (Coração das Trevas) sobre D.H. Lawrence (Filhos e amantes)
“Sujeira. Nada além de obscenidades.”

D.H. Lawrence sobre Herman Melville (Moby Dick)
“Ninguém pode ser mais palhaço, mais desajeitado e sintaticamente de mau gosto como Herman, mesmo em um grande livro como Moby Dick. Tem algo falso sobre sua seriedade, esse é o Melville.”

D.H. Lawrence sobre James Joyce
“Meu deus, que idiota desastrado esse James Joyce é. Não é nada além de velhos trabalhos e tocos de repolho de citações bíblicas com um resto cozido em suco de um jornalismo deliberadamente sujo.”

Vladimir Nabokov (Lolita) sobre Joseph Conrad (Coração das Trevas)
“Eu não consigo tolerar o estilo loja de presentes de Conrad e os navios engarrafados e colares de concha de seus clichês românticos.”

Vladimir Nabokov sobre Ernest Hemingway
“Quanto ao Hemingway, eu li um livro dele pela primeira vez nos anos 40, algo sobre sinos, bolas e bois, e eu odiei.”

Vladimir Nabokov (Lolita) sobre Fyodor Dostoievsky (Crime e Castigo)
“A falta de bom gosto do Dostoievsky, seus relatos monótonos sobre pessoas sofrendo com complexos pré-freudianos, a forma que ele tem de chafurdar nas trágicas desventuras da dignidade humana – tudo isso é muito difícil de admirar”

Gore Vidal (O Julgamento de Paris) sobre Truman Capote (A Sangue Frio)
“Ele é uma dona de casa totalmente empenada do Kansas, com todos os seus preconceitos.”

Truman Capote sobre Jack Kerouac (On The Road)
“Isso não é escrever. Isso é só datilografar.”

Charles Baudelaire (Paraísos Artificiais) sobre Voltaire (Cândido)
“Eu cresci entediado na França. E o maior motivo para isso é que todo mundo aqui me lembra o Voltaire, o rei dos idiotas, o príncipe da superficialidade, o antiartista, o porta-voz das serventes, o papai Gigone dos editores da revista Siecle”.

Elizabeth Bishop (Norte e Sul) sobre J.D. Salinger (Apanhador no Campo de Centeio)
“Eu odiei o ‘Apanhador no Campo de Centeio’. Demorei dias para começar a avançar, timidamente, uma página de cada vez e corando de vergonha por ele a cada sentença ridícula pelo caminho. Como deixaram ele fazer isso?”

W. H. Auden (Funeral Blues) sobre Robert Browning (Flautista de Hamelin)
“Eu não acho que Robert Browning era nada bom de cama. Sua mulher também provavelmente não ligava muito pra ele. Ele roncava e devia ter fantasias sobre garotas de 12 anos.”

Evelyn Waugh (Memórias de Brideshead) sobre Marcel Proust (Em Busca do Tempo Perdido)
“Estou lendo Proust pela primeira vez. É uma coisa muito pobre. Eu acho que ele tinha algum problema mental.”

Gustave Flaubert (Madame Bovary) sobre George Sand (Mattéa)
“Uma grande vaca recheada de namquim”

Friedrich Nietzsche (Assim Falou Zaratustra) sobre Dante Alighieri (A Divina Comédia)
“Uma hiena que escreveu sua poesia em tumbas”

Harold Bloom (A Invenção do Humano) sobre J.K. Rowling (Harry Potter)
“Como ler Harry Potter e a Pedra Filosofal? Rapidamente, para começar, e talvez também para acabar logo. Por que ler esse livro? Presumivelmente, se você não pode ser convencido a ler nenhuma outra obra, Rowling vai ter que servir.”

Martin Amis (Experiência) sobre Miguel Cervantes (Dom Quixote)
“Ler Don Quixote pode ser comparável a uma visita sem data para acabar de seu parente velho mais impossível, com todas as suas brincadeiras, hábitos sujos, reminiscências e sua intimidade terrível. Quando a experiência acaba (na página 846 com a prosa apertada, estreita e sem pausa para diálogos), você vai derramar lágrimas, isso é verdade. Mas não de alívio ou de arrependimento e sim lágrimas de orgulho. Você conseguiu!”

Fonte: site Flavorwire
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Lendo o que Pessoa lia

segunda-feira, 30 de abril de 2012


Esta semana esbarrei num site que disponibiliza a biblioteca virtual de Fernando Pessoa. Através do link http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt é possível conhecer o que Pessoa leu, as anotações que fez em seus livros, ideias para poemas que surgiam durante as leituras, e mais algumas coisinhas, incluindo manuscritos do próprio autor, além de poemas e traduções escritas nas páginas iniciais de alguns livros. No site da biblioteca virtual estão ainda anotações, assinaturas, dedicatórias e selos adesivos. Isso mesmo: selos!

Reprodução de livro pessoal do autor
Em seu diário, Fernando Pessoa colava os selos das lojas em que costumava adquirir livros. Pelas entradas no caderno de anotações, presume-se que o escritor encomendava suas edições a partir de um catálogo de livraria ou de alguma editora estrangeira. No espólio existem ainda muitas listas com as datas de encomenda de livros, como, por exemplo, 7 de Abril de 1916, na qual figuram The Magnet e The Magic Seven, ambos de Lida Abbie Churchillque e que ainda hoje constam da biblioteca particular.

Os livros são os que acompanharam o poeta desde a adolescência – na época em que ele ainda morava na África do Sul – até um mês antes de sua morte. Para consulta, estão disponíveis cerca de 1.100 exemplares, já que alguns não puderem ser compartilhados por razões relacionadas a direitos autorais.

Uma curiosidade interessante é que parte dos volumes traz anotações feitas por Pessoa com referências a seus famosos heterônimos. Num livro de latim de 1904, por exemplo, aparece o nome de F. Pyps, um dos primeiros na longa lista de ‘outros’ criados pelo escritor.

Vale a visita pela curiosidade e pelo trabalho de compilação.
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Literatura desenhada: Daniel Clowes

quinta-feira, 26 de abril de 2012


Literatura existencialista não é apenas lenga-lenga para chatos (sabemos, são muitos, os chatos e os lenga-lengas). Quadrinhos, por sua vez, não se resumem a sujeitos que voam e soltam raios. Literatura em quadrinhos para adultos também está aí, muito além das adaptações de cânones para estudantes preguiçosos, como dos nacionais O Alienista (conto de Machado de Assis adaptado pelos quadrinistas Fábio Moon e Gabriel Bá, do blog 10pãezinhos) e O Pagador de Promessas (de Dias Gomes, por Eloar Guazzelli). Alguns autores extraem da arte gráfica um discurso que só funcionaria com a soma da linguagem visual e textual. E o resultado estará nessa série de postagens. O primeiro autor da coluna é Daniel Clowes.

Autorretrato de Daniel Clowes
Daniel Clowes ficou mais conhecido após a adaptação da grafic novel Ghost World para o cinema, com Thora Birch (Beleza Americana), no papel de Enid, uma adolescente gordinha e desengonçada a procura de escape para o ócio, e Scarlett Johansson (Vicky, Christina, Barcelona), que deu à personagem Rebecca um esforço enorme de mover a boca e ser compreendida. O filme tem a direção de Terry Zwigoff, e também elenca Steve Buscemi e Bob Balaban.



Com a pegada narrativa comum aos contos, Eightball (sem previsão para chegar ao Brasil) é minha HQ favorita de Clowes.

Eightball é uma série de álbuns com histórias curtas, às vezes de uma página ou duas. As obras de Clowes são movidas por personagens feios, fracos, melancólicos ou cruéis, vivendo no cenário do cotidiano ou em mundos fantásticos. Há muito do existencialismo da literatura russa do século XX ali. Não há super-heróis, não há grandeza. O comum e os pequenos conflitos internos têm o peso de uma catástrofe. Até mesmo a beleza, pelas mãos de Clowes, parece meio torta, meio errada. Senão moralmente, fisicamente.

Ele assina mais de vinte HQs, um episódio de Os Simpsons e dois roteiros para cinema (com Ghost World, premiado com o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado). Pouca coisa foi editada no Brasil. Como uma Luva de Veludo Moldada em Ferro (Conrad Editora, 2002), Mundo Fantasma (Ghost World) Wilson (mais recente lançamento nacional, Companhia das Letras, 2012).

A seguir, Daniel Clowes explica como funciona seu processo de criação e como encara os personagens:


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Comédia romântica da vida real: parte final

terça-feira, 18 de outubro de 2011

O lugar estava vazio, coisa que me deixou muitíssimo contente. Sentamos numa das mesas do lado de fora e pedimos a cerveja da Paris Hilton e da Sandy Devassa.
“Que tal?”, perguntei.
“Prefiro Skol.”
“Skol fede a mijo.”
“Essa aqui não tem gosto de nada”, Bela disse.
“Gosto do comercial com a Sandy”, rebati.
“Prefiro a outra, a loira.”
“A loira é mó porca.”
“E você pensa que a Sandy é uma santa?”
“Claro que não!”, respondi. “E é exatamente por isso que eu gosto dela.”
“Bom, ainda prefiro Skol.”
“Essa aqui tem o gosto do mijo da Sandy”, soltei, e tomei um belo gole.
Conversamos mais, fumamos uns cigarros, brigamos, fizemos as pazes, comemos uma porção de manjuba e outra de maminha, brigamos de novo e fizemos as pazes mais uma vez. Só fomos embora quando o garçom veio dizer que o lugar ia fechar. Bela esperou o cara me dar a conta, pra depois pegar e colocar o dinheiro dentro.

*

Deixamos o carro na rua e subimos para o meu apê. Bela colocou sua camisola com estampa de “Eu te adoro muito” e avisou que não ia ter festinha. Eu também estava cansado demais para uma – não que a festinha com ela não fosse a melhor festinha de todas que eu tivera durante toda a minha vida até então (nosso encaixe era perfeito, quero dizer, ela era “estreita” e eu nunca tive muito a oferecer...). Dormiu enroscada em mim, feito uma cobrinha. Uma cobrinha do amor.
Naquela noite eu não pensei em suicídio antes de capotar no sono.

Por Guilherme Sakuma

Leia parte 1 | parte 2
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Comédia romântica da vida real: parte 2

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Ela estacionou atravessado na rua. Todo mundo que passava buzinava ou xingava alguma coisa. Entrei e dei-lhe um beijo na bochecha.
“Demorei... foi mal. Não quis descer de elevador com a família Buscapé inteira, vim de escada.”
“Tua cara.”
“E meu cabelo estava difícil de pentear.”
“Você parece mulher.”
“Se eu parecesse mais um pouco, arrumava um velhote pra me bancar.”
“Ainda dá tempo.”
“Espero que sim. Escuta, será que a gente pode ir agora?”
Saiu cantando pneu e deixou o carro morrer na primeira lombada. Disse que não queria mais dirigir e eu tomei o volante.
Como não conseguimos decidir para qual shopping iríamos, acabamos seguindo em direção ao mais próximo.

*

Só pra variar um pouco, foi um saco arrumar uma vaga. Quando consegui, ao descer acendi um cigarro para comemorar o feito.
“Gui, cê não sabe que não pode fumar aqui?”
“E daí que não pode? Vão fazer o quê? Me processar? Jogar spray de pimenta nos meus olhos?”
“Sei lá.”
“Vamos andando. Eu apago se alguém vier encher o saco.”
Caminhamos até as escadas rolantes que davam acesso ao shopping. Ninguém veio chatear. Como tinha conseguido a minha ceninha, apaguei o cigarro antes de descer. Bela foi na frente e eu abracei-a por trás e dei uns beijinhos em sua nuca morena.
“Cê parece criança”, ela disse.
“Isso é ruim?”
“Você tem vinte e seis anos.”
“E você tem trinta e seis.”
“Trinta e seis tem a sua vovozinha e a sua mãe.”
“Não, as duas juntas tem umas cinco vezes isso.”
“Olha, Gui, aqui tem o tênis que eu quero!”, disse, toda feliz, apontando para uma loja de tênis.
Paramos em frente da vitrine e eu vi que tênis era esse que ela queria – um troço todo colorido, de cano alto, com algumas bobagens escritas e alguns desenhos. Parecia algum tipo de brincadeira de péssimo gosto.
“Bom, combinaria com você se você tivesse sete anos”, falei. “Por que não procura um daqueles que acendem luzinha embaixo quando se pisa?”
“Já falei que quem tem trinta e sete anos é a sua mãe e a sua avó.”
“Eu não disse trinta e sete...”
“E esse aqui?”, disse, apontando para um outro coloridão – mas sem todas aquelas asneiras escritas e desenhos.
“Gostei desse. Mas, caralho, trezentos e noventa paus?!”
“Meio caro né?”
“Pra você pode até ser. Pra mim é o mesmo que passar seis meses almoçando churrasco grego na barraquinha do cabeludo do lado da Galeria do Rock.”
“Vamos ver as outras lojas.”
“Tá.”
Peguei em sua mão e fomos caroçar mais um pouco nas vitrines. A maioria das coisas era um lixo completamente inútil...
Para que eu ia querer uma mochila de notebook à prova de balas e com porta garrafa de uísque que custava R$ 3.950,00? Para que eu ia querer um relógio que suportava um quilômetro de profundidade e mordida de tubarão assassino pela bagatela de R$ 9.440,00?...
O que tem de interessante em gastar R$ 24,00 para sentar numa cadeira de silicone e tomar uma porra de um iogurte congelado com gosto de vômito açucarado? E ainda por cima fazendo pose de ricaço blasé?
Depois até encontrei algumas coisas que “pegaram” meu olho, tipo um casaco de couro ultra fashion que custava R$3.800,00 e uns óculos Rayban de grau por R$ 890,00. Mas tive que deixar para a próxima.
Como sempre, tivemos que fazer uma parada básica na C&A, onde peguei (quero dizer, comprei) duas camisetas sem estampa por R$ 12,90 cada, na promoção. Bela quis me dar um agasalho de presente, só que aí já era demais para a minha cabeça, e eu não aceitei.
Na livraria não encontrei nenhum livro que eu queria. O lugar também era bem mal organizado e mal frequentado, e os funcionários não pareciam estar fazendo nada além de bagunçar mais ainda as prateleiras. Havia romances grossíssimos com capas laminadas, letras em alto relevo, gravuras coloridas, a porcaria toda, repletos de histórias sobre bruxos, dragões, vampiros, zumbis, fantasmas, aliens e cowboys e outras merdas. Também havia algumas novas edições dos clássicos imortais da literatura repletas de descrições de planícies, móveis de madeira, candelabros, bengalas e relógios de bolso. E tinham também vários manuais ensinando como pensar, como falar, como se alimentar, como se vestir, como trabalhar, como trepar... Dava pra notar que praticamente todos os livros ali haviam sido escritos, produzidos e editados para que alguém os levasse a sério. E nego realmente tinha que fazer todo esse esforço mesmo...
De volta à loja de tênis Bela acabou escolhendo outro (tênis); um de quatrocentos e setenta paus – mas sem luzinhas e cores demais e bobeiras escritas. Nisso já eram nove e cinquenta da noite. Subimos para o estacionamento.
Srta. Sorrisinho mal pôde esperar, e já dentro do carro foi calçando seus novos tênis. Sorria para mim. Ela tinha medo da descida em espiral do estacionamento do shopping, então só falou quando já estávamos lá embaixo. “Gui, bora tomá uma?”
“Ahhhh... de novo?”
“Ué, por que não?”
“Amanhã eu trabalho.”
“Eu também. Tenho que estar as oito no salão.”
“Seria bom se você tirasse uma folga de vez em quando.”
“Ha, queridinho! E quem vai pagar minhas contas? Você?”
“Lógico que não. Arruma outro otário.”
“Então!... Ah, Gui, vamos, vai”, disse, fazendo biquinho. “Eu pago”
“Ah, agora sim cê falou o que eu queria ouvir”, brinquei e falei sério (muito sério...) ao mesmo tempo.
“Aonde a gente vai?”
“Sei lá, escolhe um lugar, Belinha.”
“Por que sou sempre eu quem tem que escolher?”
“Porque por mim a gente ia lá no boteco do China encher o rabo de cachaça até que o desgraçado expulsasse a gente.”
“Olha, se comporta hoje, viu? Que eu não tô podendo.”
Ela escolheu um bar aonde nós sempre íamos em fins de domingo como aquele; um mais ou menos tranquilo e meio caro (caro para mim, bem entendido). Tive de estacionar na rua de trás – onde ocorriam estupros e assassinatos –, porque eu não estava nem um pouco a fim de pagar estacionamento – e seria cara-de-pau demais deixar que a Bela também pagasse por mais essa. Dei uma mão para a ela e com a outra, dentro do bolso, posicionei o dedo em cima do botãozinho da lâmina do canivete, para caso houvesse alguma altercação. Mas não houve nenhuma.

Por Guilherme Sakuma

Parte 3: quarta-feia
O lugar estava vazio, coisa que me deixou muitíssimo contente. Sentamos numa das mesas do lado de fora e pedimos a cerveja da Paris Hilton e da Sandy Devassa [...]

Leia a Parte 1
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Sejam bem-vindos ao Capitu With Delay!

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Olá, aqui é o Fabrício. Tudo bem?

O Podcast Capitu With Lasers (quinzenal, indo ao ar às quintas) e as postagens (diárias) estão dando uma atrasada devido a excesso de trabalhos pessoais dos imigrantes ilegais contratados para a edição do podcast e a organização do blogue.

Novos episódios já estão gravados e em processo de edição. Esperamos que nesta semana entre no ar o episódio número 2; uma adaptação cinematográfica de Kafka, produzida por Jana Lisboa, Máwrio Câmara, Fábio Vanzo e Fabrício Romano.


Os imigrantes ilegais serão punidos, por isso.

Os imigrantes ilegais pedem desculpas.
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